O problema, em uma frase
Os dados da rede circulam tratados. Cada área baixa um arquivo, ajusta, recorta, recalcula e devolve o resultado para a rede — e a partir daí esse arquivo passa a ser usado como se fosse a fonte oficial. Com muitos dados soltos, ficamos sem saber o que é original e o que é ajuste, decisões diferentes se apoiam em números diferentes, e todas parecem certas.
O caso desta semana
Em 10 de agosto de 2026, três valores diferentes para a alfabetização da rede municipal em 2023 circulavam ao mesmo tempo dentro da Secretaria:
Nenhum dos três é falso. São medidas diferentes, e cada uma tem seu uso. O problema não é a existência de três números — é os três circularem sem etiqueta, de modo que quem recebe não sabe qual está lendo.
O efeito prático apareceu no mesmo dia. Uma planilha de trabalho que reunia dados de alfabetização por escola trazia, sem indicação, duas escalas ao mesmo tempo: algumas abas com o número do SIMAVE, outras com o número do CNCA, inclusive um gráfico cuja coluna se chamava “SIMAVE” e trazia valores do CNCA.
escolas mudam de posição na classificação quando o cálculo é refeito na escala oficial
entram no grupo de alerta crítico em que hoje não estão
Dois exemplos concretos
E. M. Honorina de Barros
Aparece classificada como crítica — sem ser.
E. M. Professor Milton Lage
É o resultado mais baixo da rede e é tratada como caso intermediário.
Ou seja: hoje há risco real de a Secretaria priorizar escolas erradas — não por falta de cuidado de quem produziu a planilha, que é um trabalho competente e bem documentado, mas porque não existe uma regra que diga qual número vale.
Por que o erro passa despercebido
As duas escalas quase coincidem no total da rede: 70,4% contra 70,7% em 2025. Quem confere o número do município nunca desconfia. A divergência só aparece escola por escola — que é exatamente onde as decisões de premiação, cobrança e apoio são tomadas.
A proposta: três camadas, não uma
A solução não é escolher um número e proibir os outros. É separar o que hoje está misturado dentro dos mesmos arquivos.
FONTES
O arquivo original, como saiu do órgão que o publicou. Imutável.
Quem pode alterar: ninguémDERIVADOS
O que a ASMAE calcula a partir das fontes. Reprodutível por programa.
Só o programa, nunca à mãoDECISÕES
O que a gestão define: metas, listas, escolas prioritárias, critérios.
A gestão, com registro de quem e quandoUma planilha que mistura as três — dado oficial, cálculo próprio e decisão de gestão, tudo nas mesmas abas — não é fonte, ainda que cada parte esteja correta. É esse tipo de arquivo que hoje circula como se fosse verdade estabelecida.
Como fica na prática
Foi criada no Drive da Coordenação uma pasta FONTES, organizada por origem e por ano:
- SIMAVE
- AVALIABH
- CNCA-INEP
- SAEB-INEP
- IDEB-INEP
- INSE-INEP
- CENSO-INEP
- SGE
- CADASTRO-SMED
Quatro regras a governam
- Se não dá para baixar de novo da origem e chegar ao mesmo arquivo, não é fonte.
- Arquivo em FONTES não se abre para editar. Abrir e salvar já altera o arquivo. Para trabalhar, copia-se para fora.
- Dado revisado pelo órgão não substitui o anterior: entra como arquivo novo, com a data nova. O antigo permanece, porque é ele que explica um número que já circulou.
- Todo arquivo é registrado num manifesto, com origem, data do download, filtros exatos da exportação e uma impressão digital que permite verificar, a qualquer momento, se ele foi alterado.
Os filtros fazem parte da identidade do dado. Dois arquivos do mesmo portal, mesmo ano, com filtros diferentes, são fontes diferentes. Nesta semana, um filtro trocado — “município” no lugar de “escola” — travou meio dia de trabalho até ser identificado.
O que já está feito
A série de alfabetização de 2023, 2024 e 2025 por escola já está em FONTES, registrada e verificada. Os arquivos foram baixados duas vezes do portal, em momentos diferentes, e as duas cópias são idênticas. A soma das escolas reproduz exatamente o número publicado pelo Estado nos três anos, com diferença zero.
Foram mapeados e catalogados, com impressão digital, os demais arquivos oficiais que já estavam no Drive mas guardados dentro de pastas de projeto: as divulgações do IDEB de 2023 e 2025, os microdados do Saeb, o indicador socioeconômico e as metas do CNCA. Falta movê-los para FONTES.
O que isso muda para quem decide
- Todo número apresentado passa a ter origem verificável, e qualquer pessoa pode refazer o caminho até o arquivo original.
- Quando dois números divergirem, a conversa deixa de ser sobre quem está certo e passa a ser sobre qual medida responde à pergunta.
- Decisões de gestão — metas, listas, escolas prioritárias — ficam registradas como decisões, com autor e data, e não se confundem com dado observado.
- Retrabalho diminui: hoje cada pedido novo vira uma planilha nova porque não há base comum de onde partir.
O que peço à gestão
Três definições, e nenhuma delas é técnica:
Qual indicador de alfabetização é o oficial da SMED para acompanhar escola a escola
Por quê: hoje convivem SIMAVE e CNCA. Os dois são legítimos e medem coisas ligeiramente diferentes. É preciso declarar um.
Que nenhum dado entre em painel, planilha ou apresentação sem estar em FONTES
Por quê: é a regra que sustenta todas as outras.
Quem responde pela guarda das fontes de cada sistema
Por quê: alguém precisa ser a referência para SGE, AvaliaBH e cadastro, como a Coordenação já é para IDEB e alfabetização.
Quando uma planilha for compartilhada, dizer de onde ela veio e o que foi calculado nela. Uma linha basta. É o que separa uma base sólida de um monte de arquivos.
Uma observação sobre método
Nada aqui é crítica ao trabalho de ninguém. Os materiais que circulam foram feitos com cuidado e resolvem problemas reais — e o estudo que motivou este documento trouxe dados que o nosso sistema não tinha, como as matrículas de 2026 e as metas por escola, e que já foram incorporados.
O que falta não é qualidade do trabalho. É uma convenção comum sobre o que é fonte e o que é elaboração. Sem ela, o esforço de cada área acaba disputando com o das outras, em vez de somar.